terça-feira, 27 de março de 2012

Ana-grama

As roupas ainda estão no varal
Na foto ainda me sorri
A toalha não vai cair 

Ainda sobra o órgão vital
Nas cores ainda vejo o sim
A mancha dos tons anis

As palavras estão no jogral
Na boca do meu jardim
A poesia sua em mim

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

Quando for chegada a hora

Boa noite.
Quero aqui te receber com um beijo.
Não sei quanto tempo ainda me resta.

Quero aqui firmar o meu anseio,
Te prender por um instante no meu egoísmo peculiar

Eu saí do meu corpo,
E não te achei por entre os gritos.

Quando for chegada a hora,
A sua luz sempre há de me ferir
Guarde bem este meu beijo, a minha voz rouca
Quando for chegada a hora,
Conceda-me um bom dia.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

um homem com uma dor
é muito mais elegante
caminha assim de lado
como se chegando atrasado
andasse mais adiante

carrega o peso da dor
como se portasse medalhas
uma coroa um milhão de dólares
ou coisa que os valha

ópios édens analgésicos
não me toquem nessa dor
ela é tudo que me sobra
sofrer, vai ser minha última obra.

Paulo Leminski 

terça-feira, 19 de julho de 2011

Por ser tão grande

Quando a noite enfim recai, numa semana intensa de inverno, um livro se destaca na estante. Ele tem a pele vermelha, como de maçã - talvez por isso sua projeção.
Na tua ausência eu te descubro por entre as páginas. Estás aqui. Sinto-te.

Quando o vento pára de soprar, Tom Waits recomeça noutra faixa, logo mais. Procuro um verso, um poema intitulado "Maçã". Riso sutil no começo de noite. Voz rouca e piano tímido, Manuel Bandeira então se sobressai:

Não te doas do meu silêncio:
Estou cansado de todas as palavras. 
Não sabes que te amo?
Pousa a mão na minha testa:
Captarás numa palpitação inefável
O sentido da única palavra essencial
- Amor.



domingo, 19 de junho de 2011

A única constância

A luz que sempre acende
O som que sempre ecoa
O bloco que sempre marcha

O motor da história
As flores de minh'ana.

sexta-feira, 20 de maio de 2011

Se ainda resta dúvida

Quando o quarto da empregada não for mais senzala
Quando o trabalho não for mais escravo
Quando o menino pobre não for mais marginal
Quando a comida não for mais restrita
Quando a escola não for mais obstáculo
Quando o jornal não for mais mentira
Quando o homem não for mais moeda
Quando a mulher não for mais objeto
Quando o desejo do povo não for mais motivo de guerra

Será que nós estaremos vivos?

Ao lado do povo eu luto a vida. Viver a morte já não me faz feliz.

domingo, 17 de abril de 2011

Nada é acabado, tudo é permanente construção

Daqueles que ainda sofrem repressão e permanecem calados, jamais sentirei fúria ou raiva, sempre lhes guardarei esperança.
É preciso amar a quem é reprimido, e amar ainda mais a quem reprime, pois, este sim, merece rápida providência.


*de pensamentos que se tornam tweets, de tweets que se tornam posts.